quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Ajudar o próximo

Os católicos têm obrigação de ajudar os "refugiados"?

Deste modo, uma vez que não pode beneficiar todos os que ama de igual modo, seria injusto se não preferisse ajudar aqueles que lhe são mais próximos. Mas a proximidade de espírito é maior do que a do lugar e do tempo, na qual fomos gerados neste corpo, e é a principal e a que se sobrepõe a todas."- Santo Agostinho, A Verdadeira Religião.
Portanto, ao contrário do que diz o sr. Bergoglio, o católico não tem qualquer obrigação de ajudar os invasores em detrimento dos que lhe são próximos. Mesmo que eu ame todo o mundo a minha prioridade deve ser para com os que estão mais perto, visto não poder acudir a toda a humanidade. Preterir os que me são mais próximos é injustiça.

poesia (LXXXIII)

O supremo

A lei,
De todos o rei, mortais e
Imortais; exerce precisamente
Por isso com violência
A mais justa justiça, com mão soberana.

Friedrich Holderlin, Fragmentos de Píndaro (trad. Bruno C. Duarte), Lisboa, Assírio e Alvim, 2010.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Bons tempos

Em que a homossexualidade não era apregoada aos quatro ventos, mas vivida como algo do foro pessoal:
 "Conheci em Sevilha um senhor, de cujo nome não quero lembrar-me, que me disse: 'Sei que os meus amigos vão dizer-lhe que sou homossexual. E quero que agora, que iniciamos a nossa amizade, você o saiba da minha boca: sou homossexual. Você aceita ser meu amigo?' Disse-lhe que sim e agora vejo-o frequentemente e não me importa o que ele faça porque é uma excelente pessoa. Além dele tenho outros amigos homossexuais, mas fizemos um pacto tácito que também vale, que consiste em não falar do assunto, porque temos ainda outros, como por exemplo o Universo."- Pilar Bravo/Mario Paoletti, Borges Verbal (trad. José Bento), Lisboa, Assírio e Alvim, 2002.

Católicos

"No meu país, se se pergunta a alguém se é católico, responde que sim. Então você acredita na Trindade? Não, mas sou católico! Então acredita na absolvição? Não, mas sou católico! Você acredita na Imaculada Conceição? Não, mas sou católico! Minha mãe era católica e não acreditava no inferno."- Pilar Bravo/Mario Paoletti, Borges Verbal (trad. José Bento), Lisboa, Assírio e Alvim, 2002.

Condição

É necessário que reconheçamos que é melhor um homem que chora do que um verme feliz".- Santo Agostinho, A Verdadeira Religião, Porto, Afrontamento, 2012.

poesia (LXXXII)

RECONCILIAÇÃO

Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação-
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.

E nossos lábios desejam beijar-se-
Por que hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.

Else Lasker-Schuler, Baladas Hebraicas (trad. João Barrento), Lisboa, Assírio e Alvim, 2002.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Ressurgimento

"Eu acredito fervorosamente nos destinos da nossa Raça. Um País que, - mais do que fronteiras de montanhas ou rios - criou uma História, uma Língua, uma Arte independente, não pode morrer. Pode ainda a nacionalidade ter um período de obscurecimento abismador... Façam-lhe ainda pior do que lhe têm feito; a Raça não sucumbirá - e a Nação há-de ressurgir do próprio sangue, das próprias lágrimas do seu calvário."- António Correia de Oliveira, DN- 6 de Março de 1920 in De Santo António a Oliveira Salazar.

primeira república

"... não é do Parlamento que deveremos esperar para o grito de alarme, pois os parlamentos são em todo o mundo quase o mesmo que o nosso, reuniões de medíocres ligados por somas de cobiças e interesses, que raro se justapõem aos nacionais. Especialmente nos países latinos, o ódio das 'élites' cultas ao parlamento é por toda a parte intenso e obsecante, desde que se reconheceu que os países apulhastrados são os que mais tempo perdem em altercações e discurseiras. Por toda a parte o bom senso das populações repulsa essas oficinas de sofismas, bravatas, grosserias, onde todas as questões nacionais são desviadas e aproveitadas a benefício de indivíduos ou de grupos, e onde ao cabo de meses de tumultos nada se adiantou, que três ou quatro homens de talento não fizessem melhor, em três ou quatro dias, no silêncio dos seus quartos de trabalho.
 Em tão grave lance, aguardar que os governos comecem, sem os incitar por um levantamento em massa de todas as energias válidas do reino, é persistir numa resignação imoral, e achar no suicídio o remédio único de misérias, que Portugal só deve à criminosa apatia de seus filhos."- Fialho de Almeida, Saibam Quantos, Lisboa, 1912 in De Santo António a Oliveira Salazar.

poesia (LXXXI)

elogio do príncipe da dinamarca

coitado do hamlet
assassinado
empurrado
para o sepulcro que é

oculto entre reposteiros
sem paixões
como os ladrões
que lucram trinta dinheiros

coitado do que ele vê
crimes
espectros
correctos

coitado do hamlet

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação, Lisboa, Assírio e Alvim, 1981.

domingo, 20 de agosto de 2017

Racionalidade conspiratória

Aqueles que acham estranho o facto de, em algumas ocasiões, serem encontrados documentos de identificação dos terroristas após os atentados nos locais dos mesmos são aqueles que consideram perfeitamente natural o facto dos judeus deixarem sempre que os seus malvados planos de dominação do mundo sejam descobertos e encontradas as provas dos mesmos.

livro do dia: A Revolta dos Anjos

Romance de Anatole France em que um anjo-da-guarda desiludido prepara uma revolta após muitas e laboriosas leituras. Humorístico q.b., datado também, dentro do espírito pós-romântico e positivista bem ao gosto da época e que não sobrevive à passagem dos anos quando começam as derivas filosóficas. À data causou polémica, como se pode ler em algumas recensões da altura:
 "Um nojo... Anatole França vai desta vez muito longe, uma ficção canalha e infame". (Gervásio Pina, Trombeta da Beira).
 "Este porco julga-se engraçado... não passa de um herege infame e quem lhe edita isto é da mesma laia" (Rodolfo de Souza, Notícias do Minho).

 Mas houve quem o elogiasse:
 "Excelente denúncia das mentiras clericais... soberbo... a padralhada vê-se desmascarada na sua infâmia" (José Silva, Ecos do Douro).
 Edição da Cavalo de Ferro, de 2017.

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A actualidade da semana, by José Carlos (V)

Inevitavelmente, esta semana fica marcada pelo sucedido em Barcelona. Mais um incidente com vítimas a lamentar. São as circunstâncias da sociedade moderna. Creio ter sido o presidente Hollande a dizer que temos de nos habituar a estas situações. Em sociedades multiculturalistas é natural a existência de algumas tensões que por vezes se manifestam de forma trágica e lamentável.
 Dito isto creio, tal como a direita moderna e arejada, que a solução passa por não cairmos no ódio. E por não fecharmos as fronteiras aos que procuram na Europa um refúgio, fugidos das guerras na Síria, Iraque, Paquistão, Bangladesh, Senegal, África e tantos outros a ferro e fogo. A Europa escravizou o mundo no passado e tem, por isso, a obrigação moral de limpar esse registo vergonhoso.
 Igualmente importante é não cedermos à islamofobia. O islão é uma religião de paz, e estes indivíduos que praticam tais actos não são representantes do islão. Também não dizemos que Hitler representa a religião católica embora represente, infelizmente, uma boa parte dos católicos do passado e mesmo de hoje pois o racismo é uma realidade ainda muito viva. Além disso, terrorismo sempre houve. Lembremos a ETA, o IRA e outras organizações sinistras.
 A semana fica ainda marcada pela resistência ao racismo que se verifica nos Estados Unidos. A presidência de Trump abriu caminho ao mais repugnante racismo. O KKK, os nazis e outros sentiram-se livres para saírem à rua, com o apoio do presidente xenófobo. Mas nesta semana a América genuína, dos valores, saiu à rua para dizer basta. Estátuas e símbolos fascistas não são bem vindos. O racismo não tem lugar numa sociedade decente.
 Muito bem esteve o mundo a condenar o apoio de Trump aos racistas e nazis da alt right, uma organização de cariz neonazi como sabemos. Destaco em especial a reacção de Theresa May, líder britânica, a qual veio dizer que não há qualquer equivalência moral entre fascistas e quem se lhes opõe. E isto é muito importante porque há quem queira colocar as acções de ambos no mesmo plano e isso é inaceitável. Se, por vezes, os antifascistas recorrem a alguma violência tal é apenas devido às provocações de que são alvo. Além disso, uma coisa são os excessos cometidos em defesa da liberdade - e por isso legítimos - e outra são os abusos cometidos em nome do fascismo. Nós, na direita arejada, moderna e cosmopolita não queremos ter nada a ver com o racismo.
 Destaco ainda a saída da Casa Branca de mais um conselheiro de Trump, o neonazi Bannon. É mais uma derrota para o louco que ameaça a paz no mundo. Pouco a pouco, de derrota em derrota,será obrigado a ceder. A solução, como já escrevi, passa por colocar Obama (recordo que foi Nobel da Paz) na presidência até à realização de eleições verdadeiramente livres e justas.
 Ainda relacionado com a América saúdo a decisão do líder norte-coreano. Ao não lançar mísseis contra Guam deu um sinal positivo. Ao contrário do louco de Washington mostra preferir a via do diálogo à do confronto, pois só assim o mundo fica a ganhar.
 Por cá saúdo o trabalho notável do diário Público. Fiel à sua tradição de jornal de referência trouxe esta semana para a discussão o problema do racismo no país. Pouco se fala, no entanto é o maior problema da sociedade portuguesa e não existirá avanço social se não se debater esta questão. O Público cumpre a sua parte, saibamos nós cumprir a nossa.
 Mas não é só o Público a fazê-lo. Demonstrando uma saúde notável e um espírito cívico de louvar, a nossa imprensa mobiliza-se em redor de causas justas. O Diário de Notícias incluía há dias uma notável entrevista com Alexandra Lucas Coelho, um dos nomes grandes da cultura do nosso país (curiosamente já trabalhou no Público). Nela podia ler-se que Portugal não é dos brancos, bem como o alerta para o que foi a história do país e da sua expansão. Uma história de colonialismo e racismo que muito nos envergonha. Uma história que nós, na direita moderna e arejada, não desejamos ver celebrada. Que a diversidade, o cosmopolitismo e a tolerância se ensinem nas aulas de história, muito bem. O racismo e o colonialismo é que não.
 A semana fica ainda marcada por uma polémica em torno de uma piada do humorista João Quadros, posteriormente vítima de insultos. É inaceitável uma coisa destas. Li a piada e pude perceber o seu alcance. É um ataque ao fascismo e não a uma pessoa em particular. Mas, mesmo que o fosse, uma sociedade liberal e cosmopolita tem de aceitar o humor. Não pode haver limites à liberdade de expressão, excepto quando ela é usada para promover o ódio, a islamofobia e o racismo. Aí sim, o Estado tem de intervir porque o respeito é a base do relacionamento social saudável. É assim que vemos a situação, na direita moderna e arejada.
 Entretanto continuou o flagelo dos incêndios. Não esperem da minha parte uma palavra de aproveitamento político. Não é essa a minha forma de estar na política. Elevação e construtivismo, sim. Aproveitamento, não.
 Porque somos da direita moderna, arejada e cosmopolita.

poesia (LXXX)

DECISÕES

-Quem és tu?
-O cozinheiro do duque de Guise.
-Ele batia-te?
-Sim.

-Quem era Gutemberg?
-Era um carro de bois.
-O que fazia?
-Sonetos.

Mário Cesariny, Antologia do Cadáver Esquisito, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989.

sábado, 19 de agosto de 2017

Não temos medo!

Não temos medo!", gritou-se em Barcelona. Já se tinha gritado o mesmo em Nice, Bruxelas, Paris...
Não têm medo? deviam ter. Eu tenho. De levar com um automóvel em cima, de ir pelos ares com um suicida, etc. Mas vou fazendo o que posso para o superar.
"O medo é a mais primordial das emoções", dizia H.P. Lovecraft. Foi o medo que nos garantiu até aqui. Os nossos antepassados das cavernas tinham medo de leões, ursos, feras de todo o tipo. Lutaram contra ele, foram engenhosos e deixaram descendência. Uma sociedade que diz não ter medo perdeu o instinto de preservação.
Pensam, talvez, que dizer isso vai impressionar os jihadistas? não vai.
"Não tenho medo!", diz a zebra ao leão que a persegue. E este ri-se da inconsciência.

poesia (LXXIX)

GOSTARIA

Gostaria
Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento.

Boris Vian. Canções e Poemas (trad. Irene Freire Nunes/Fernando Cabral Martins), Lisboa, Assírio e Alvim, 1997.