domingo, 22 de outubro de 2017

Estaline era bom moço?

Suplemento de hoje do Correio da Manhã: "É ele (Estaline) que organiza a máquina do partido comunista e conduz a purga que visa limpar o país dos opositores. São executados 750 mil, e três milhões enviados para o Gulag, mas a URSS inicia o caminho da industrialização".
 Nestas poucas linhas a sra. Fernanda Cachão consegue a proeza de escrever vários disparates. E o Correio da Manhã é o menos ideológico dos diários portugueses.
 A purga foi para limpar "opositores"? boa. Foram 750.000? certo. O Gulag contentou-se com 3 milhões? também está bem. No czarismo não existia industrialização? Ah. Mas os outros é que iam cantando e rindo.

Não se passou nada

Numa turma de 11ºano pergunto pelo Holodomor. Ninguém ouviu falar. O Gulag? idem. E a turma tem bons elementos, note-se. Explico-lhes o que foi um e outro. E surge a pergunta de um dos rapazes: estas coisas não se ensinam por causa da força que os partidos comunistas ainda têm?
 Pois é. Ainda há bastantes jovens com discernimento. É pena a formação -ou a falta dela - que se lhes vai dando. A manipulação ideológica a que estão sujeitos para futuramente serem mais facilmente controláveis. O controlo do passado...

Poesia (CXXXIII)

PAPOILAS EM OUTUBRO

Esta manhã nem mesmo as nuvens entre o sol podem pôr estas saias.
Nem a mulher na ambulância
De coração vermelho a florescer assombrosamente através do casaco-

Uma oferenda, uma oferenda de amor
Jamais pedida
Nenhum céu

Esmaiado e em chamas
Pondo a trabalhar o seu monóxido de carbono, nenhuns olhos
Estáticos, em sentido sob chapéus de coco.

Ó meu Deus, o que sou eu
Possam as últimas bocas gritar alto
Numa floresta de gelo, num amanhecer de centáureas.

Sylvia Plath, Ariel (trad. Maria Fernanda Borges), Lisboa, Relógio d'Água, 1996.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Qualquer momento é bom para a doutrinação

Ligo a televisão para ver o início dos telejornais. Passo pela rtp2. Estão a dar uns desenhos animados. Alguns dos bonecos estão vestidos à Che Guevara. Um professor diz que foi alguém que lutou pelos pobres. Uma máquina do tempo leva a heroína da história de encontro ao canalha, nas selvas cubanas. Até em simples desenhos animados a propaganda tem o seu lugar. Nunca é demasiado cedo para branquear a história - mas isto não é nada disso, nem revisionismo. É humanismo e educação.

Civilização

Perto de casa, um passeio público com dezenas de cagalhões de cão. É natural que haja muitos que têm tamanho amor aos animais. São como eles. Sem noção de civismo, higiene, sociedade, educação... selvagens cuja diferença em relação a outros de antanho reside no facto de viverem em apartamentos e possuírem telemóveis.

poesia (CXXXII)

Há um tempo para as palavras.
Do inaudível ouvido
Tamborila a vida
Os seus altos direitos.

Talvez- venham da mossa
Que a fronte faz num ombro.
Talvez- venham do raio
Invisível de dia.

Pela inútil corda, o gesto
Dos ossos- sobre o lençol.
Tributo ao seu medo
e ao seu corpo mortal.

É tempo do mal ardente
E das súplicas em surdina.
Tempo de ser irmão sem terra.
Tempo de ser órfão do mundo.

Marina Tsvetáeva, Depois da Rússia 1922-1925 (trad. Nina Guerra e Filipe Guerra), Lisboa, Relógio d'Água, 2001.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Mais de 500.000 hectares ardidos

São dois Luxemburgos. É o distrito de Portalegre. É metade de Chipre. Um quarto da Eslovénia. Etc. É um recorde absoluto. Nunca houve um ano assim. Alguém com vergonha na cara demitia-se de imediato e só saía à rua com a cabeça coberta de cinzas. Não esperava que alguém o empurrasse. Ou que houvesse uma moção de censura. Mas quem não tem vergonha todo o mundo é seu.

http://observador.pt/2017/10/18/2017-tera-sido-o-pior-ano-em-area-ardida-sistema-europeu-aponta-para-mais-de-500-mil-hectares/




Civilização

Ontem, antes do jogo RB Leipzig-FC Porto, fez-se um minuto de silêncio no estádio. De silêncio. Pelas vítimas dos incêndios em Portugal.
 Por cá, desde há alguns anos, a estupidez dita que se batam palmas como se os homenageados fossem artistas de circo ou da canção. E é ver os minutos de silêncio transformados em momentos de pagode pelos estádios fora. É a diferença entre civilização e barbárie.

O apagamento do cristianismo na Europa

Com a benção de Bruxelas. E a abertura ao islão, mais próximo do totalitarismo da União das Repúblicas Socialistas Europeias.

https://www.gatestoneinstitute.org/11188/europe-erases-christianity

O filantropo

Continua a espalhar o bem pelo mundo. Quem não o conhecer que o compre.

https://www.msn.com/pt-pt/noticias/mundo/bilion%C3%A1rio-doa-18-mil-milh%C3%B5es-de-d%C3%B3lares-para-desenvolver-democracia/ar-AAtGB1L?li=BBoPMmd&ocid=mailsignout

poesia (CXXXI)

ORAÇÃO DA NOITE

Vivo sentado, como um anjo nas mãos de um barbeiro,
Empunhando uma caneca de estrias profundas,
Com o hipogastro e o colarinho arqueados, um Gambier
Entre dentes, numa atmosfera prenhe de impalpáveis veleiros.

Como se fossem excrementos quentes de um velho pombal,
Mil sonhos cavam em mim doces queimaduras:
Logo depois o meu coração triste fica como um alburno
Que o ouro jovem e sombrio das cores ensanguenta.

Em seguida, quando já engoli meus sonhos cuidadosamente,
Volto-me, com trinta ou quarenta cervejas no papo,
E concentro-me para fazer as minhas necessidades ásperas:

Doce como o Senhor do cedro e do hissopo,
Mijo para os céus castanhos,muito alto e muito longe,
Com a concordância dos grandes heliotrópios.

Arthur Rimbaud, O Rapaz Raro (trad. Maria Gabriela Llansol), Lisboa, Relógio d'Água, 1998.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

novamente a pergunta

Onde está o PAN?
Onde estão o BE, o PCP, os Verdes?
A floresta e os animais do Portugal rural são menos relevantes?
As gentes do Interior são dispensáveis? não são tão sensíveis a "causas fracturantes"? o eleitorado urbano e a função pública é que são importantes?

Os invasores primeiro

O Correio da Manhã noticia hoje que um navio da marinha resgatou 62 tunisinos que se dirigiam para Itália. A Tunísia não está em guerra, não sofre nenhuma situação de catástrofe, é dos países mais estáveis de África.
 Há militares portugueses no Mediterrâneo, no mar Egeu, na República Centro-Africana e no Mali, creio.
 O estado português não defende os seus cidadãos, mas disponibiliza recursos para salvar os outros.
 Há obrigações internacionais? pois, mas deviam vir depois de asseguradas as necessidades dos nossos.

Formiga Branca

Durante a primeira república a camarilha democrática de Afonso Costa e sequazes tinha na Formiga Branca, nas ruas de Lisboa, o seu braço armado. Intimidação, violência, insultos, espancamentos, eram o pão nosso de cada dia.
 Cem anos depois não temos a Formiga. De resto, pareceria mal. Mas temos os que, nos jornais, nas redes sociais, por aí, tratam de defender com unhas e dentes o aparelho. Na essência não se distinguem dos seus confrades de há cem anos. São da mesma cepa e deles descendem em linha directa. São o novo povo de Lisboa. Dedicam-se a impor a verdade aos descrentes e refractários. Os de há cem anos impuseram a república e a fé pelo telégrafo. Os dos nossos dias utilizam a internet. Mudam as tecnologias, mantém-se tudo o resto.

poesia (CXXX)

ROSAMUNDO

A André Derain

Por muito tempo ao pé da escadaria
Da casa onde entrou a dama
Que tinha seguido durante duas
Longas horas em Amsterdão
Meus dedos lançaram-lhe beijos

Mas o canal estava deserto
também o cais e ninguém viu
Como os meus beijos reencontraram
Aquela a quem dediquei a minha vida
Um dia durante mais de duas horas

De Rosamundo a baptizei
Querendo poder recordar
A sua boca florida na Holanda
Depois lentamente me afastei
À procura da Rosa do Mundo.

Guillaume Apollinaire, O Século das Nuvens (trad. Jorge Sousa Braga), Lisboa, Assírio e Alvim, 2007.